UFRJ - PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA PSICANALÍTICA

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Publicações

Um novo lance de dados: psicanálise e medicina na contemporaneidade

Capa

Org. Joel Birman, Isabel Fortes, Simone Perelson
Rio de Janeiro
Cia de Freud, 2010

SUMÁRIO

Apresentação

 

Discurso freudiano e medicina

Joel Birman

O médico, o psicanalista e a histérica: a desinserção da psicanálise no discurso da medicina contemporânea

Tania Coelho dos Santos & Jésus Santiago

O corpo na clínica contemporânea e a anorexia mental

Isabel Fortes

Sobre a clínica da dor: o desafio da construção de um espaço terapêutico

Márcia Arán & Raquel Alcides

Apelo ao outro na dor física crônica: a dimensão melancólica da queixa

Marta Rezende Cardoso & Patrícia Paraboni

A experiência Balint – Paideia na rede de atenção oncológica. Entre a psicanálise e a medicina: da vivência privada à experiência compartilhada

Priscila Magalhães & Regina Neri

Os psicanalistas podem desprezar inteiramente as categorias diagnósticas da psiquiatria?

Julio Verztman, Regina Herzog & Teresa Pinheiro

Psicanálise e Medicina da Reprodução: notas sobre três tempos na história desse encontro

Simone Perelson

Em tempos de Reprodução Assistida

Maria do Carmo Borges de Souza & Marisa Decat de Moura

A “bioboucle”, uma questão epistemológica atual

Christian Hoffmann

De perdas e danos: notas para uma reflexão sobre ciência e sujeito

Ieda Tucherman

O fracasso normal da psicanálise: o real e a função do analista

Fernanda Costa-Moura

Sobre os autores

 

APRESENTAÇÃO

A relação entre a psicanálise e a medicina inaugurou-se com a ruptura que Freud realizou com esta última. Ao demonstrar que os sintomas histéricos não se moldavam pelo corpo anatômico, mas pelo corpo representado, a psicanálise demarcou radicalmente sua distinção epistemológica face à medicina. No entanto, é preciso ressaltar que, apesar da ruptura inicial, a história da interface entre estes dois saberes foi também tecida por uma intensa interlocução entre eles. A proposta da coletânea Um novo lance de dados: psicanálise e medicina na contemporaneidade, produzida pelo Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da UFRJ, é trazer para o centro do debate questões que se colocam hoje como fundamentais no diálogo entre psicanálise e medicina.

O avanço das neurociências na medicina atual já levanta de saída interrogações que são cruciais não apenas para esse diálogo, mas também para uma reflexão sobre o lugar da psicanálise no mundo contemporâneo. O surgimento do chamado sujeito cerebral, produzido pelas novas tecnologias de imageria cerebral e pelas recentes descobertas da biologia molecular, nos conduz a mapear algumas linhas de forças que balizam esse debate. É praticamente um consenso, entre os adeptos da psicanálise, que a ideia de uma “biologia da consciência” entra em choque com as concepções psicanalíticas de sujeito do inconsciente e de sujeito falante. Sustenta-se aqui que a visão de sujeito que a biologia molecular tem como alvo difere da compreensão do sujeito na teoria psicanalítica. Assim, a crítica que a psicanálise dirige às neurociências é por estas abraçarem uma visão generalista na qual o sujeito fica reduzido à condição biológica, sendo aí neutralizadas suas dimensões pulsionais e históricas.

A crença de que a experiência subjetiva pode ser explicada pelos processos neuroquímicos do nosso cérebro já adentrou o âmbito do imaginário social, sendo adotados nesse domínio enunciados que utilizam a causalidade dos processos cerebrais para entender afetos como simpatia, violência ou amor. A consequência de se pensar a subjetividade unicamente a partir dos parâmetros biológicos é um ameaçador retorno do naturalismo e do cientificismo. Ora, sendo a construção psicanalítica de sujeito eminentemente antinaturalista, sendo a psicanálise um saber que não se coaduna de forma alguma com a progressiva eliminação do sujeito efetuada pela perspectiva neurocientífica, o que se destaca da interlocução entre a psicanálise e a medicina, quando o que está em questão são as últimas descobertas das neurociências, é fundamentalmente um profundo hiato.

Assim, diante do recrudescimento do naturalismo e do cientificismo no quadro da atual epistemologia, faz-se premente hoje, mais do que nunca, escutar o sujeito. Se oferecer visibilidade ao sujeito sempre foi tarefa do eixo clínico/teórico da psicanálise, essa tarefa ganha hoje função de resistência frente à neutralização crescente da subjetividade humana que nosso tempo testemunha.

Os últimos avanços da medicina no campo da reprodução colocam também novos desafios à psicanálise. Se, face aos enunciados e descobertas das neurociências, cabe à psicanálise resistir pela sustentação da necessária escuta do sujeito do inconsciente, no que concerne às novas tecnologias reprodutivas, a resistência psicanalítica implica na sustentação do laço entre reprodução humana e erotismo. Com efeito, separando o sexo da reprodução, a medicina transforma hoje o ato procriativo numa experiência cada vez mais dependente da técnica e menos de Eros, cada vez mais na resposta devidamente programada a uma demanda consciente e menos num efeito imprevisível do desejo inconsciente. Entretanto, por mais sofisticadas e precisas que sejam as últimas técnicas reprodutivas, e por mais eficazes que estas se mostrem no tratamento da infertilidade de causas orgânicas, os médicos não deixam de ter de se deparar constantemente com os restos indesejáveis da “deserotização” da reprodução e da filiação, a saber, as infertilidades psíquicas. E é aqui que o psicanalista, a escuta do inconsciente e o tratamento pela palavra vêm a ser convocados pela própria medicina.

Essa interlocução não se reduz, entretanto, a essa única convocação, pois, ao liberar o ato procriativo do imperativo do encontro sexual fecundo, a medicina reprodutiva torna possível hoje, seja como algo tecnicamente realizável, seja como algo social e simbolicamente legitimável, formas de filiação até agora inadmissíveis socialmente ou impensáveis simbolicamente. A psicanálise aqui é convocada a refletir sobre as novas montagens simbólicas de filiação, não mais reguladas pelos limites da natureza, mas sim pelos novos horizontes abertos pela técnica.

Mas a medicina hoje não apenas separa a reprodução do sexo e multiplica as possibilidades de montagens simbólicas de filiação, como também despedaça a experiência reprodutiva, produzindo uma estranha exposição e circulação de secreções corporais e dos resultados de seus encontros. Óvulos, sêmen e embriões são estocados, doados, comercializados, descartados. O aprimoramento técnico não impede, mas ao contrário, exige a produção de um estranho excesso. O corpo, em sua dimensão excessiva e incontrolável, marca aqui a sua presença. Eis-nos de volta à temática do corpo. Entretanto, não se trata mais agora do corpo histérico, do corpo simbólico que, revelado por Freud já há mais de um século, produziu a psicanálise a partir do rompimento de seu inventor com a medicina. Hoje, é a dimensão excessiva do corpo que marca sobretudo os mais recentes capítulos da história das interfaces entre a medicina e a psicanálise.

Com efeito, as publicações recentes da psicopatologia e da psiquiatria clínica têm dado ênfase principalmente à toxicomania, às depressões e à síndrome do pânico, condições clínicas que podem ser definidas como patologias da ação e do corpo. Um movimento paralelo a esse é também observado nas publicações psicanalíticas das últimas décadas, que testemunham uma maior preocupação com o corpo no cenário teórico da psicanálise. A característica do sofrimento corporal parece ser sua dificuldade de se expressar psiquicamente. Os sintomas que se manifestam hoje no corpo apresentam uma descarga corporal que, no entanto, não chega a se traduzir psiquicamente, sendo portanto a fragilidade da elaboração psíquica a marca desses sintomas na atualidade. O psicanalista se vê, assim, diante de um enorme desafio: como empreender uma clínica da palavra com pacientes que fazem do corpo não apenas o seu sintoma, mas, antes, a sua forma de ser?

Enquanto a subjetividade perde progressivamente a sua função de ligação, elaboração e simbolização do afeto, o corpo se torna cada vez mais o principal lócus de expressão da dimensão afetiva do eu. Tendo permanecido desligado, o afeto só pode expressar-se sob a forma da angústia. O corpo torna-se, assim, a via por excelência de descarga direta da angústia e, da mesma forma, de apresentação do eu. É por essa razão que é fundamentalmente a maneira abissal segundo a qual a subjetividade se ausenta e o corpo se apresenta na cena do mundo contemporâneo que norteia hoje o diálogo entre a psicanálise a medicina.

O quadro de Magritte que ilustra a capa da presente coletânea indica a fragmentação do corpo na contemporaneidade, que assiste ao movimento de uma enorme dessubjetivação do homem. O pássaro negro que surge ao lado do corpo fragmentado indica, no entanto, que essa dessubjetivação não conduz unicamente a um movimento de desvitalização daquele. O pássaro metamorfoseia a liberdade que se descortina para o homem contemporâneo, na medida em que ele se desprende definitivamente dos determinismos da modernidade, podendo voar no céu infinito do indeterminismo e da imprevisibilidade que marcam a época da contemporaneidade. Nossa aposta é que a psicanálise possa jogar um novo lance de dados nas cartas que estão sendo colocadas pelo mundo contemporâneo e possa ter as asas para voar lado a lado com esse pássaro.

Os organizadores

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