UFRJ - PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA PSICANALÍTICA

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Publicações

Psicanálise, Pesquisa e Universidade

Psicanálise, Pesquisa e Universidade
Organizador:
Waldir Beividas
Rio de Janeiro
Contra Capa Livraria, 2002

Sumário

Apresentação

Waldir Beividas

Psicanálise e ciência: uma questão de método

Ana Cristina FigueiredoMarcus André Vieira

Considerações a propósito do "sujeito da ciência"

Roberto Calazans

A experiência do conceito na psicanálise: a provisoriedade e a ênfase na observação

Vinícius Anciães Darriba

Do saber suposto ao saber exposto: a experiência analítica e a investigação em psicanálise

Tania Coelho dos Santos

Sobre a dimensão inventiva da fantasia

Regina HerzogRicardo Salztrager

Clérambault através de Lacan: o automatismo mental e os delírios passionais

Ana Beatriz Freire
Maria Silvia Hanna
Paula Mancini C. Mello Ribeiro
Verbena Dias

Entre psicanálise e música: variações quase atonais entre Freud, Foucault e Adorno

Jacila Maria da Silva
Joel Birman

A linguagem onírica: Freud e Lacan entre os hieróglifos

Waldir Beividas
Marcos Lopes

 

Apresentação

O leitor tem em mãos o quarto livro coletivo de uma série iniciada em 1999, composta de pesquisas dos professores do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro e de seus alunos doutorandos1. Como os anteriores, este livro testemunha um esforço coletivo de rever, discutir e, quem sabe, ampliar o campo de investigação em psicanálise, na variedade de estilos e na independência de tratamento dos conteúdos escolhidos, não obstante sua confluência no que diz respeito ao caráter geral de pesquisa e proposições em desenvolvimento.

A variedade dos estilos e a independência de tratamento têm de ser ressaltadas: assim como nas publicações anteriores, desmente-se aqui a opinião de um ou outro psicanalista, no caso pior quando é diretor, mestre ou líder de Institutos e/ou Escolas de psicanálise, que entende e quer fazer entender que a pesquisa gerada em Universidade, além de um sem-número de mórbidos sintomas, incompatibilidades radicais com a psicanálise, foraclusões generalizadas do sujeito, acusações sempre agressivamente atribuídas, peca por compor tudo em "uma só versão". A opinião é mal posta sobretudo porque imposta com a etimologia barata do termo, que se contenta de sua superfície 'significante' impostura pois, mal prevenida dos deslizamentos semânticos e da densidade profunda que coube à Universitate na história de seu nascimento. O latim fora então eleito língua uni-versal não para compor a uni-versão do saber, mas para tornar possível a própria comunicação, a discussão, a contra(-)dição entre filosofias e teorias, e evitar o babelismo generalizado, caso fossem lançadas nas academias ou ágoras públicas a partir de diversos microdialetos regionais. Imaginemos o que seria da física moderna e contemporânea se Isaac Newton não tivesse escrito sua Philosophiae Naturalis Principia Mathematica desse modo.

Mal posta, a opinião se torna denúncia leviana, a confundir a cabeça de estudantes porventura ávidos de apreender a psicanálise sob suas mais diversas roupagens. Liberdade e diversidade de pensamento praticam-se mais de dentro e reivindicam-se menos para fora.

Em "Psicanálise e ciência: uma questão de método", Ana Cristina Figueiredo e Marcus André Vieira propõem investigar o que consideram as bases de um método de pesquisa psicanalítico: "prática clínica por definição". Percorrem a leitura de Alexander Koyré sobre a história do pensamento científico, e de Jean-Claude Milner sobre ideal de ciência e ciência ideal. Pretendem incluir na ciência psicanalítica "algumas práticas intelectuais distantes" do laboratório ou seus dispositivos experimentais e, para isso, tomam como horizonte de argumentação as críticas de Popper e Wittgenstein, aventando para a psicanálise a ocorrência de um protocolo de teste e de refutação como critério de validação. Propõem-no primeiramente como a "construção", antiga sugestão de Freud; em seguida, requisitam "um lugar mais visível ao material clínico", disposto como um banco de dados que se oferece à construção de proposições pelo investigador, de modo a serem "falsificáveis a posteriori por outros". Suas considerações se tecem para a) enfrentar o "desafio de sustentar uma clínica psicanalítica no âmbito da universidade" e, portanto, legitimar a universidade como "lócus possível para o trabalho clínico"; b) enfrentar as sutilezas da relação pesquisa/tratamento; c) alimentar o trabalho conceitual no âmbito da psicanálise a examinar os pares: história e caso, supervisão e construção, registro e perda, e, enfim, conceitos e distinções.

"Considerações a propósito do 'sujeito da ciência'" leva Roberto Calazans a escrutinar o famoso aforismo lacaniano - "o sujeito sobre o qual opera a psicanálise só pode ser o sujeito da ciêncials" - a fim de conferir-lhe inteligibilidade propriamente psicanalítica e melhor precisar a relação entre psicanálise e ciência, tendo em conta o contexto do campo científico em que Jacques Lacan o formulou. Propõe o entendimento do aforismo a partir de textos pivôs de Lacan, movimentos de grande envergadura no andamento do seu ensino: "Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise" (1953); "Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano" (1958) e "A ciência e a verdade" (1965), todos publicados em Escritos.

O texto "A experiência do conceito na psicanálise: a provisoriedade e a ênfase na observação", de Vinícius Anciães Darriba, repassa a relação de Freud com a ciência de seu tempo, para perseguir se há ou não especificidade propriamente psicanalítica no que toca à experiência da produção conceitual. Não só analisa a tensão permanente entre o modelo científico e a "tendência à especulação" com o intuito de extrair o lugar da ciência na obra do vienense, como também examina com extensão o aspecto da provisoriedade das hipóteses científicas e a ênfase na observação, características pelas quais em geral se associa o pensamento freudiano ao conhecimento científico. Seu escopo é defender a validade de um estudo a perseguir uma "experiência do conceito" ou uma nova "imagem do comceito" que seja própria à psicanálise, isto é, ver respeitadas as singularidades dessa frente diante dos modos de conceituação da ciência.

Sob vários argumentos lançados em "Do saber suposto ao saber exposto: a experiência analítica e a investigação em psicanálise", Tania Coelho dos Santos investiga o trajeto de formação de um aluno em pós-graduação até a defesa de sua tese como o percurso de um "saber suposto" a um "saber exposto". Com a mudança de eixo que se dá na passagem do ensino (em graduação) para a pesquisa (em pós-graduação), a autora aproxima essa última da própria formação de psicanalistas nas Instituições de psicanálise. Por isso, lamenta e critica a dissociação que muitos psicanalistas vêem entre a experiência de análise e a pesquisa acadêmica, isto é, entre um pretendido excesso de consistência do saber exposto (atribuído ao discurso da ciência e considerado até mesmo resistência) e a "inconsistência do saber suposto" presumida como própria ao discurso analítico. Procura, assim, contornar tal dissociação, a partir das proposições de Lacan sobre psicanálise e ciência, e das reflexões de Jacques-Alain Miller sobre o dispositivo analítico (saber suposto), o dispositivo do passe (saber exposto) e mesmo a questão da apresentação de doentes. Sugere que o fim de um percurso acadêmico de pesquisa, isto é, as teses universitárias, tem a mesma "posição subjetiva" e a mesma "estrutura de exposição". que o dispositivo do passe e da apresentação de doentes. A seu ver, isso responderia a muitos psicanalistas que, por desonhecer os processos subjetivos em jogo na formação de um pesquisador, desdenham a efetividade desse processo e o reduzem, de maneira equivocada, a uma "burocrática atribuição de insígnias" em que a singularidade do sujeito é devorada pelo discurso da ciência, nutrindo, nos eventuais candidatos a psicanalista, "uma atitude preguiçosa perante a elaboração do saber exposto".

Regina Herzog e Ricardo Salztrager, em seu texto "Sobre a dimensão da fantasia", propõem que Freud, em "Além do princípio do prazer", texto paradigmático de 1920, teria exposto os limites do método interpretativo, fundado na dimensão representativa do aparato psíquico, e promovido o que chamam de "positivação da dimensão intensiva". Procuram garimpar nos textos freudianos desde as propostas de aparato neuronal de "Projeto para uma psicologia científica" os poucos subsídios explícitos dessa dimensão intensiva, com o objetivo de estabelecer um vínculo entre a figura da fantasia e a intensidade pulsional. Perpassam, entre outros, cartas a Fliess, o "Homem dos lobos", o texto da fantasia de espancamento, culminando em uma nova proposta de leitura sobre a fantasia de Da Vinci, em complemento à já clássica interpretação de Freud.

Uma equipe de pesquisadoras sobre a psicose, formada por Ana Beatriz Freire, Maria Silvia Hanna, Paula Mancini e Verbena Dias, põe em cena o capítulo "Clérambault através de Lacan: o automatismo mental e os delírios passionais". Seu propósito é examinar em que medida as amplas e detalhadas pesquisas do mestre psiquiatra dos anos 1920 sobre a síndrome do automatismo mental e sobre os delírios passionais estiveram Psicanálise, pesquisa e universidade à soleira das premissas estruturalistas do vigoroso psicanalista dos anos 1950, com vistas a circunscrever as especificidades da estrutura da psicose."Entre psicanálise e música: variações quase atonais entre Freud, Foucault e Adorno" é o capítulo em que Joel Birman e Jacila Maria da Silva procuram orquestrar a problemática da relação entre psicanálise e música, mormente as contribuições que o "pensamento musical" pode oferecer à psicanálise. O intento é não só interrogar o discurso psicanalítico a partir da música, mas também buscar o que pleiteiam como um enriquecimento teórico de questões que auxiliem na problemática do mal-estar na atualidade.

Por fim, Waldir Beividas e Marcos Lopes assinam o capítulo "A linguagem onírica: Freud e Lacan entre os hieróglifos". Com o argumento liminar de não abandonar o que julgam o "potencial heurístico" das relações entre psicanálise e lingüística, relações cada vez mais desdenhadas após a morte de Lacan, o estudo visa a fazer sobressair a participação dos hieróglifos na reflexão freudiana sobre a linguagem do inconsciente e, em decorrência, na técnica analítica de interpretação. Adentra brevemente nos fundamentos do próprio sistema de escrita egípcia para examinar algumas características caras ao pioneiro da psicanálise, entre elas a composição aparentemente intrincada e imprecisa dessa escrita, tal como ocorre nos sonhos. Além disso, demonstra, na confrontação com a pesquisa do grande decifrador da pedra Roseta, Jean François Champollion, a situação de fragilidade de algumas premissas e de algumas formulações veementemente categóricas de Lacan em seu retorno ao Freud dos hieróglifos, sem prejuízo do valor da atitude estrutural com que as libera.

1. Cf. os livros organizados por Birman (1999), Herzog (2000) e Lo Bianco (2001)

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