UFRJ - PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA PSICANALÍTICA

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Publicações

Psicanálise e laço social

Psicanálise e Laço Social

Organizadora: Fernanda Costa-Moura
Rio de Janeiro
7Letras, 2009

Sumário

Apresentação

Fernanda Costa-Moura

Angústia, laço social e biopolítica: Uma leitura genealógica dos paradigmas teóricos em Psicanálise

Joel Birman

A transmissão como uma Torre de Babel: Psicanálise e Arte Contemporânea

Tania Rivera

O corpo como objeto: Uma reflexão psicanalítica sobre a ficção a partir da arte contemporânea

Giselle Falbo

Uma “sonata materna”: a violência pulsional atuada na ópera

Gisele de Araújo Abrantes
Marta Rezende Cardoso

Inventando possíveis laços com adolescentes autistas e psicóticos: um caso clínico

Ana Beatriz Freire
Katia Alvares de Carvalho Monteiro

Inclusão escolar e laço social: o analista em um dispositivo de extensão da Psicanálise

Angélica Bastos
Jeanne Marie Costa Ribeiro

A técnica dos ‘artigos sobre a técnica’ e o lugar do psicanalista

Alessandra Tavares Silva
Marcos Eichler de Almeida Silva
Fernanda Costa-Moura

Adesão ao líder ou submissão ao pai: a escolha do sujeito

Anna Carolina Lo Bianco

A psicanálise de orientação lacaniana e a criminologia

Tania Coelho dos Santos
Maria José Gontijo Salum

Lógica da ciência, formalismo e forclusão do sujeito

Francisco Leonel F. Fernandes
Fernanda Costa-Moura

Sobre os autores


Apresentação

Psicanálise e Laço Social

A questão do laço social como modo de tratamento do mal-estar na cultura é essencial para psicanálise. A experiência psicanalítica nos ensinou que o sujeito, enredado em suas estratégias mortíferas de recuperação do essencialmente perdido, encontra na ordem do discurso a via possível para atravessar a vida. Por isso mesmo, Freud nunca confinou a psicanálise numa ação entre dois. Concebendo a sexualidade e a pulsão como essencialmente atravessadas pelo social, tratou da cultura, da história, da política, da arte e da religião a partir da psicanálise, sem jamais recuar de sua posição. Lacan por sua vez, situando a psicanálise como inseparável do campo da fala e da linguagem indica que no mais substancial de seus fundamentos a psicanálise é ela mesma um laço social. Uma práxis apoiada numa ética que nos ata enquanto sujeitos, não à elaboração conceitual diletante, mas a um laço específico com o Outro, com o significante e com a perda. Em uma palavra: ao real.Os trabalhos reunidos nesta coletânea abordam questões fundamentais da psicanálise em suas relações com as diferentes respostas do corpo social ao mal estar, considerando as particularidades das intervenções orientadas pela posição do psicanalista.

Parte dos artigos retoma as apresentações e discussões do VI Colóquio do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, realizado em Novembro de 2007 e intitulado Psicanálise e Laço Social. Buscando colocar questões relevantes à prática teórica da psicanálise, incluímos no campo de nossa pesquisa a interface com os domínios conexos das ciências, do campo jurídico, da educação, das artes e da filosofia, entre outros. O que os artigos revelam, cada um a seu modo, é o efeito de sujeito que pode comparecer em meio a todos estes campos. É esse efeito, em sua compleição real – efeito pontual, evanescente, produzido na efetuação do discurso analítico, onde quer que este opere – que permite à psicanálise operar no laço social. Um lastro instável, decerto, para uma empresa tão arriscada. Mas se a psicanálise tem efeitos, o único modo de aferi-los, mesmo que eles se percam, é na relação do sujeito com o real no contexto de sua cultura, em suas ações e atos.Abrindo a coletânea, Angústia, Laço Social e Biopolítica: uma leitura genealógica dos paradigmas teóricos em psicanálise, de Joel Birman aborda a psicanálise como formação discursiva que articula historicamente diferentes paradigmas submetidos aos imperativos do saber e do poder. Argumentando que a problemática característica da psicanálise está na conjunção dos registros da angústia, do laço social e da biopolítica, o autor considera a formalização de tal conjunção nos múltiplos discursos teóricos que se estabeleceram ao longo da história da psicanálise e estão presentes até os dias atuais. Colocando-se em uma perspectiva genealógica – conforme proposta de Foucault para conceber a formação das epistemes – examina a constituição de diferentes paradigmas em psicanálise (em particular Freud, M.Klein, Lacan e Winnicott) e sua afiliação a sistemas de crenças e valores determinados, e a tradições filosóficas específicas; ressaltando especialmente a incidência do contexto delineado pela biopolítica – como modalidade moderna de poder – na emergência e inflexões sofridas pela psicanálise em sua história.A articulação da psicanálise com a arte é tomada a seguir, em três artigos.

Em A Transmissão como uma Torre de Babel: Psicanálise e Arte Contemporânea Tania Rivera se apóia na concepção segundo a qual é impossível se fazer História da Arte sem que se tome como referência uma teoria do sujeito, para retirar do jogo entre a psicanálise e a dispersão da produção artística de hoje, – jogo fadado à falha – a possibilidade de caracterização do sujeito contemporâneo. A partir do que é proposto nas artes visuais e em especial na obra de Cildo Meirelles, intitulada Babel, a autora divisa um sujeito que é efeito de uma transmissão que se dá por traços longínquos ainda que familiares. Giselle Falbo, por sua vez, discute a desestetização da arte contemporânea como sintoma das mudanças operadas nos discursos que ordenam os laços sociais na atualidade. Em O corpo como objeto: uma reflexão psicanalítica sobre a ficção a partir da arte contemporânea observa que na performance e sobretudo na chamada Body Art há uma desestabilização da unidade imaginária que provoca o esfacelamento dos limites fornecidos por esta via; apontando para um despojamento da dimensão fálica cujas conseqüências busca circunscrever pela teorização lacaniana da angústia. Com base numa performance de M. Abramovic, aborda o surgimento paradoxal de novos imperativos superegóicos na contemporaneidade; sustentados por um gozo que vem instalar-se como presença, em substituição à perda do gozo fálico.Voltando-se para o mundo operístico – no qual as autoras reconhecem a convergência de três vertentes artísticas; a literatura, a arte cênica e a música – o artigo Uma “sonata materna”: a violência pulsional atuada na ópera, de Gisele de Araújo Abrantes e Marta Rezende Cardoso destaca a dimensão trágica da ópera como representação do sofrimento do sujeito em seu confronto com o que se impõe de maneira abrupta, violenta, sem resposta possível. Discutindo a experiência de fruição, propõem que a ópera proporciona ao sujeito uma modalidade de encontro com o Unheimlich na forma da desgraça, do sofrimento, do desespero dos personagens. Privilegiando a dimensão musical, em especial o canto, como a via de expressão do conteúdo na ópera e, aproximando-o à voz da mãe, isolam os efeitos constituintes e traumáticos destas primeiras trocas sonoras sobre a criança, os quais tocam também à condição mais primordial do sujeito: sua “abertura ao outro”, antes de um fechamento das barreiras que constituirão o indivíduo.

Visando as dificuldades de constituição do laço social em condições como a da psicose e do autismo na infância e na adolescência, Ana Beatriz Freire e Katia Alvares de Carvalho Monteiro fazem um percurso que parte da idéia de J.A. Miller do Outro que não existe até chegar à sua invenção como um sistema articulado pelo paciente. Enfatizando que o laço social para a psicanálise não é considerado a priori, como a inserção de um sujeito ao social totalizado e já dado, as autoras concebem o processo de construção do laço social como um “processo de limpeza do outro inassimilável, do gozo”, processo esse que requer a inclusão em um sistema de linguagem. Apresentam ainda um caso clínico, a partir do qual procuram isolar os instrumentos inventados pelo jovem para sair do autismo modalizando o gozo do objeto e proporcionando efeitos que o enlaçam de forma singular ao social mais amplo.Examinando os modos de laço social hegemônicos nas instituições, os quais engendram discursos que não se dirigem ao sujeito, Angélica Bastos e Jeanne Marie Costa Ribeiro, situam o lugar da psicanálise no trabalho com crianças autistas e psicóticas e a extensão da psicanálise com vistas à inclusão escolar destas crianças para as quais a linguagem falha em instituir o laço social. A partir de fragmentos de casos clínicos em sua singularidade discutem o trabalho realizado com professores, que se desenvolve no sentido de reconhecer as soluções que encontram no manejo dessas dificuldades. Escutando os profissionais em seus impasses e invenções, ao invés de ensinar a eles, as autoras propõem um trabalho cujos princípios são os da clínica analítica e que, ademais, reconhece o impossível implicado na educação; maximizado no contexto em questão. Acompanhando-os neste confronto frutífero com a impossibilidade dominar o gozo pelo saber, o trabalho aposta em que, em suas intervenções com as crianças, os educadores possam vir a dar a elas a chance de traçar seu caminho subjetivo para a constituição de um laço social.

Prolongando o debate sobre a incidência do psicanalista na constituição dos laços sociais o trabalho de Alessandra Tavares Silva, Marcos Eichler de Almeida Silva e Fernanda Costa-Moura aborda o laço sustentado pelo discurso analítico tal como proposto e formalizado por Freud no contexto de seus artigos sobre a técnica. Interrogando como o domínio da técnica poderia concernir o sujeito em causa na psicanálise o artigo destaca a dimensão de ato implicada na prática da psicanálise e argumenta que por incluir necessariamente o sujeito em seu cerne, a chamada técnica psicanalítica constitui antes uma ordem discursiva que exige o que Lacan denominou presença do psicanalista em sua responsabilidade.Anna Carolina Lo Bianco parte de uma teoria freudiana da tradição para refletir sobre as condições da transmissão para a psicanálise. Enfatizando em particular o lugar que o pai vem a ocupar nesta problemática, mostra que se a transmissão implica a palavra do pai por um lado, ela implica também e, necessariamente a impossibilidade de uma continuidade, da imposição direta de conteúdos, ordens, ou vontades. É por relação a essa ruptura que se situa o lugar do sujeito na cadeia de transmissão. Para o sujeito, portanto, tomar lugar nesta cadeia não se reduz a obedecer às injunções de um líder e nem tampouco, herdar genética ou juridicamente. Quando se trata do sujeito, ao contrário, herdar implica o ato de inscrever-se numa tradição que se transmite no ponto exato em que o sujeito servindo-se da palavra do pai poderá ultrapassá-lo.Em estudo detalhado Tania Coelho dos Santos e Maria José Gontijo Salum examinam a relação da psicanálise com o direito penal, tendo em vista a versão contemporânea da moral individualista cuja lógica, essencialmente pragmática e utilitária, leva ao progressivo esvaziamento da dimensão de expiação, em jogo na pena, em prol da tendência ao formal, hegemônica no direito de nossos dias. O artigo retraça o longo percurso da relação psicanálise/direito, desde seu início com Freud, que introduz o problema do sentimento de culpa na consideração sobre o crime; passando pelos pós-freudianos que trabalharam nos cenários das duas guerras mundiais e desenvolveram sobretudo o que poderia ser visto como uma psicologia do criminoso; até chegar à concepção lacaniana, que na contra-mão do preconizado atualmente, enfatiza o lugar do assentimento subjetivo da culpa e da função de expiação do crime como forma de promover a assunção do sujeito à responsabilidade por seu ato.

Finalizando, o artigo de Francisco Leonel Fernandes e Fernanda Costa Moura encontra a relação da ciência com o laço social na contemporaneidade não tanto pelo viés das novas condições de vida social daí decorrentes, mas nas próprias transformações que a ciência impõe à linguagem. A partir de uma perspectiva psicanalítica e tendo em vista a questão da sustentação do lugar do sujeito no discurso examinam as conseqüências das operações de formalização da linguagem, que estão na base do curso da ciência, sobre o funcionamento social contemporâneo. Sob o formal de tais operações apreendem efeitos que dizem respeito à restrição da eficácia da palavra, à abolição da historicidade e à redução da dimensão de enunciação presente na língua a uma forma objetiva e objetivante. Conclui-se que a ciência engendra um meio bastante eficaz de desvio, de adiamento, de anulação da potencia da linguagem, levando junto, como não poderia deixar de ser, o efeito de sujeito.Esperamos e desejamos ao leitor desta coletânea que encontre aí um incentivo para situar a psicanálise além do pessimismo, ou otimismo, de uma pretensão moral que a conjugaria às demandas terapêuticas da sociedade e do jogo econômico. Quando se trata das relações entre a psicanálise e a estrutura, tomar lugar nas responsabilidades que são específicas da psicanálise é a via que, se não chega evidentemente a unir os analistas, fazer “conjunto”, unificar o campo sempre conflagrado da psicanálise, marca ao menos os limites deste campo e lhe confere uma chance efetiva.

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