UFRJ - PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA PSICANALÍTICA

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Publicações

O Estranho na Clínica

O Estranho na Clínica
Organizador: Juan Carlos Cosentino
Rio de Janeiro
Contra Capa Livraria, 2001

Sumário

Apresentação

Juan Carlos Cosentino

I. Ato e posição do analista: redefinição do horror


Variações do horror: o destino da neurose

Juan Carlos Cosentino

O horror do ato analítico

Anna Carolina Lo Bianco


II. Razão desejante: a produção do mal


As duas faces do desejo

Regina Herzog

A constituição do mal na Idade Média

Paula Villaverde


III. O real impossível: a castração alucinada


Psicose e impossibilidade: o real em questão

Ana Beatriz Freire

O anal e o escópico no Homem dos Lobos

Carlos J. Escars


IV. Função da causa: o sinistro, a escrita


O Homem da areia ou o espanto se introduziu em sua vida

Martha Mon

Considerações sobre a causalidade inconsciente: a cadeia significante e o significante impossível

Angélica Bastos

O ato, o horror

Simon Kuffer


Apresentação

Os textos que compõem esta publicação resultam de uma indagação compartilhada por psicanalistas que mantêm atividades de ensino e investigação tanto na Universidade Federal do Rio de Janeiro quanto na Universidade de Buenos Aires. A pesquisa que empreendemos durante mais de dois anos, no âmbito da cooperação tecnocientífica argentino-brasileira (Setcip-Capes), chama-se "O fenômeno do estranho na clínica psicanalítica: vicissitudes da subjetividade".

O ordenamento aqui proposto nasceu da leitura retroativa dos trabalhos produzidos. 1) Redefinição do horror: divisão do sujeito, saber em ato e escrita; 2) Fracasso onírico, ato e posição do analista; 3) Razão desejante: pulsão e gozo; 4) A produção do mal: gênero e sujeito; 5) O real impossível: a Verwerfung; 6) Fracasso escópico e irredutibilidade do anal; 7) Literatura, estética e fenômeno do sinistro; 8) Significante impossível: objeto e letra; 9) A divisão do sujeito: marca e escritas.

O que é o fenômeno do estranho [Unheimliche]? Os breves momentos ("Variações do horror: o destino da neurose") em que irrompe o que não se deixa capturar pela significação. Na temporalidade do instante [Zeitpunkt], o dispositivo analítico não coincide com o desejo de dormir. Uma via que descobre, com o desejo do analista, a função da angústia entre gozo e desejo.

Momento em que, como assinala Anna Carolina Lo Bianco, o sujeito escapa e tanto o sonho como o aparelho psíquico falham; e que, durante a sessão analítica, se tenta evitar com a palavra apaziguadora. Aquele que escuta é convocado a advir, conseqüência de seu ato, como analista. "Ponto de horror que, em razão do risco que comporta, está sempre a exigir coragem". Até o século XIX, a razão ocupou um lugar privilegiado à custa de um recalque da dimensão desejante. É certo que vários pensadores - os estóicos, Espinosa, Schopenhauer, Nietzsche -, ao trabalhar de modo singular a questão do desejo, anteciparam-se a Freud. Não obstante, como assinala Regina Herzog, há no pensamento freudiano uma diferença fundamental que diz respeito ao sujeito, uma vez que a psicanálise postula uma razão desejante e lhe confere um estatuto ímpar: "o desejo é, antes de tudo, sexual". Ao elucidá-lo ("As duas faces do desejo"), assinala a duplicidade do desejo; de um lado, este se estabelece como uma busca incessante de sentido e, do outro, comporta uma dimensão diruptiva: revela-se motor da própria realidade psíquica. Dessa forma, em 1920 a diferença entre o prazer de satisfação alcançado e o pretendido redefine "a vivência primária de satisfação" como repetição: "a pulsão recalcada jamais cessa de aspirar a sua satisfação"; e, ao mesmo tempo, essa mesma desigualdade mostra a outra face do desejo como "mau desejo": produz o fator pulsional que, ao não poder eliminar sua tensão diligente, "impele, indômito, sempre adiante".

O texto de Paula Villaverde se apóia em uma analogia estrutural, antecipada pela constituição do dispositivo filosófico da Grécia antiga, entre a constituição do sujeito do inconsciente e a criação,com o cristianismo, do gênero humano. Ambos, constituição e gênero, são sustentados por uma perda. Com essa queda, defendida pelos três autores a que recorre (Orígenes, Gregório de Nisa eSanto Agostinho), inaugura-se uma nova concepção do mal e, simultaneamente, constitui-se um novo sujeito. Assim, o mal pode estar também em outro lugar. Como núcleo do mito da criação, está na Coisa [das Ding] freudiana. Com a divisão do sujeito, restabelece-se a diferença do fator pulsional como gozo: um mal que está muito próximo, mas que vale como semelhante: "esse núcleo de mim mesmo do qual não ouso me aproximar".

Ana Beatriz Freire investiga a constituição do real como impossível na psicose, assim como a especificidade desse impossível, em todo sujeito, nos registros imaginário, simbólico e real. "Se o objeto a designa o não-simbolizável do gozo impossível", as obras de arte dos psicóticos ou alguns processos delirantes têm como função, lá onde a Verwerfung opera, "localizar o gozo em um objeto separado do corpo?"Para redefinir o fenômeno do horror quando não se pode fixar o gozo de uma vez por todas, contamos com o termo "castração alucinada", proposto por Ruth Mack Brunswick no relato da análise do Homem dos lobos com ela. Carlos Escars interroga essa dimensão alucinatória com os sonhos dessa segunda análise: a vacilação do fantasma escópico mostra a emergência do olho voraz, do olho mau, do mal do olho. Ele o retoma ao afirmar que, no Homem dos lobos, o fracasso do dito fantasma escópico e a irredutibilidade do anal não são alheios ao que permanece, com a Verwerfung, fora da castração.No núcleo do sujeito habita o mal. A literatura fantástica moderna explora esses territórios que a razão e a ciência da época não conseguem explicar. O trabalho de Martha Mon situa, a partir do encontro entre a literatura e o Unheimliche, um vazio inesperado na falta de coesão do relato: o sentimento de estranheza é o efeito provocado nessa fenda situada no plano da causalidade. A ficção da literatura fantástica explora a cena fantasmática justamente quando se quebra a dimensão significante que a suporta. Coincide com o momento de aparição do fenômeno do sinistro - o sujeito se experimenta como puro objeto - ao situar o instante de dita transição.

Um âmbito determinado e marginal da estética: o do estranho que em 1919 pertence à ordem do terrível, vale dizer, o que provoca angústia e espanto. Assim, essa estética do horror, diferente da estética kantiana, marca um novo caminho quando, na tempo-ralidade do instante, a irrupção da angústia anuncia "uma catástrofe iminente".O trabalho de Angélica Bastos interroga o regime de funcionamento da causa a partir do questionamento da noção de significante impossível. Com o papel reservado ao lugar da perda quando o caput mortuum do significante assume seu aspecto causal, afirma que esse significante aglutina, como momento intermediário, os conceitos de objeto e de letra. Do mesmo modo, a presença do psicanalista deve incluir-se no conceito de inconsciente "como o caput mortuum desse descobrimento".

Em 1963, o objeto a se apresenta como causa do desejo e sua emergência como o que define o horror. Assim, quando em uma análise vacilam fantasma e neurose de transferência, revelam-se o lugar de objeto do sujeito e as falhas do discurso do Outro. Uma dimensão de horror ainda interna à estrutura fantasmática do desejo: fugaz instante de queda da identificação com o objeto do fantasma como causa do desejo do Outro.

Voltemos ao início. Anna Carolina Lo Bianco observa que o conceito de pulsão interroga a interpretação-sonho. Trata-se não somente da impossibilidade do significante de dizer tudo, mas também desse momento em que a interpretação - o fracasso da função do sonho - é impossível: não se pode mais esperar a resposta do Outro. O ato analítico, portanto, ao não incluir, em seu breve momento, a presença do sujeito, "põe o analista em uma posição de mais absoluto desconforto".

Quando o despertar ("Variações do horror: o destino da neurose") acompanha a dissolução do sujeito suposto saber, irrompe aquilo que não se deixa capturar pela via da significação. A operação de transferência muda de direção. Trata-se do objeto a na dimensão da compulsão à repetição: perda e mais-de-gozar.

Tempo de corte: suspende-se o desejo de saber conferido ao Outro. Nesse ponto de encontro, é esperado o desejo do analista. Resta ao sujeito limitar-se ao investimento pulsional do sintoma, vale dizer, à estrutura que o determina, além da que o fantasma velava.

Como indica Simon Kuffer, uma reformulação do objeto que, suporte do ato analítico, vale como enunciação. E assim, em cada análise se poderá inscrever pela primeira vez uma marca "que não é solidária a algo que serve para todos".

Um lugar de pudor original. Uma forma de saber em ato, um saber disjunto, tal como o encontramos no inconsciente, suscetível de ser escrito por uma letra, estranho ao discurso da ciência.

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