UFRJ - PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA PSICANALÍTICA

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Publicações

Formações Teóricas da Clínica

Formações Teóricas da Clínica
Organizadora: Anna Carolina Lo Bianco
Rio de Janeiro
Contra Capa Livraria, 2001

Sumário

Apresentação

Anna Carolina Lo Bianco

Servidão, fidelidade, ancestralidade

Joel Birman

A experiência psicanalítica entre ciência e literatura

Andréa B. Albuquerque

O texto imagético: parnasianismo e experiência analítica 

Karla Patrícia Holanda Martins
Teresa Pinheiro

A escuta clínica em psicanálise: abdução e catálise 

Waldir Beividas

O conceito de realidade e o lugar dos pais na experiência clínica

Giselle Falbo
Regina Herzog

De Freud a Lacan: os operadores estruturais

Clara Huber Peed
Maria Cristina da Cunha Antunes
Tania Coelho dos Santos

O humor, o grotesco e a dimensão estética da clínica psicanalítica ou por que rir nas análises?

Daniel Kupermann

Implicações clínicas do desejo na neurose obsessiva

Marcos Comaru

Causalidade e resposta à castração na psicose

Angélica Bastos
Rosa Alba Sarno Oliveira

Lacan versus Lacan: sobre a psicose

Helena Veloso

 

Apresentação

Os artigos aqui reunidos compõem o terceiro número da série dedicada a apresentar os trabalhos que vimos desenvolvendo no Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Esta coletânea está centrada em pesquisas voltadas para questões surgidas na clínica que, por sua natureza, exigem ser pensadas e teorizadas. Tal teorização não se faz apenas a posteriori da prática empírica. O psicanalista lida com definições teóricas abstratas que orientam sua prática. Essas, no entanto, são ajustadas e precisadas a partir do cotidiano da experiência analítica, que fornece o material para o refinamento da elaboração teórica subseqüente. É esse movimento que permite a diminuição da distância entre teoria e prática e o aumento do vigor que deve caracterizar a práxis analítica.

Os nove artigos que elaboram teoricamente o fazer analítico estão precedidos de um denso ensaio de Joel Birman, "Servidão, fidelidade, ancestralidade", no qual, aproveitando a comemoração dos cem anos de "A interpretação de sonhos", procura pensar uma crise atual da psicanálise. Através de Mamãe faz cem anos, instigante filme de Carlos Saura, questiona as linhas de ancestralidade dos psicanalistas, recorrendo às figuras da servidão e da fidelidade transferenciais para defender a possibilidade de que cada analista fale em seu nome próprio. Segundo argumenta Birman, esse seria o único meio de manter afastados da psicanálise "a opacidade, a obscuridade e o silêncio sepulcral" que a ameaçam.

O artigo de Andréa B. Albuquerque, "A experiência analítica entre ciência e literatura", mostra como, ao aproximar-se da literatura, Freud encontrou um recurso fecundo para circunscrever uma modalidade de experiência terapêutica que se distanciava do modelo científico que propusera inicialmente e do qual a psicanálise sempre trouxera a marca. Em seguida, examina os dois campos a fim de circunscrever a especificidade da psicanálise entre as experiências científica e literária. A relação da psicanálise com a literatura é apresentada por Karla Patrícia Holanda Martins e Teresa Pinheiro em "O texto imagético: parnasianismo e experiência analítica". Pesquisando os chamados "casos difíceis" da clínica atual, as autoras abordam a linguagem dos pacientes através do que definem como "discurso imagético", aproximando-o das narrativas que descrevem a paisagem do sertão, sobretudo as imagens de desertificação e pouca modulação das fronteiras do horizonte, lugar em que o Outro tem um poder incontestável.

Ainda considerando os discursos de outros saberes em suas articulações com a clínica analítica, Waldir Beividas, em "A escuta clínica em psicanálise: abdução e catálise", toma emprestado das teorias de Peirce e Hjelmslev os conceitos de abdução e catálise, respectivamente, importantes para o entendimento da escuta analítica sobretudo por permitirem ampliar a operação da "escuta flutuante" e de outros procedimentos analíticos que o autor localiza para além de uma dimensão puramente racional.Valorizando o movimento de pulsação entre a conceituação e seu balizamento oferecido pela clínica, Giselle Falbo e Regina Herzog, em "O conceito de realidade e o lugar dos pais na experiência clínica", examinam o lugar do discurso dos pais no tratamento infantil, demonstrando, nesse exame, a estreita relação entre a direção do tratamento e a articulação teórica dos textos analíticos realizada pelo terapeuta.

Situando a emergência do sujeito psicanalítico vis a vis alguns momentos cruciais do pensamento ocidental, Clara Huber Peed, Maria Cristina Antunes e Tania Coelho dos Santos, em "De Freud a Lacan: os operadores estruturais", utilizam a discussão entre ciência e psicanálise para demonstrar que esta tem a função de reintroduzir a dimensão do mito. A partir daí, examinam as relações entre verdade e desejo inconsciente presentes na estrutura do sujeito moderno.Daniel Kupermann, por sua vez, apõe uma dimensão estética à meramente cientificista. Em "O humor, o grotesco e a dimensão estética da clínica psicanalítica ou por que rir nas análises?", levanta novas questões sobre as intervenções do analista ao introduzir a questão do humor na clínica psicanalítica.

Em "Implicações clínicas do desejo na neurose obsessiva", Marcos Comaru utiliza as investigações clínicas com o objetivo de refinar as conceituações que orientam a experiência analítica e examina os desafios que a clínica da neurose obsessiva impõe às referidas teorizações. Ao privilegiar a relação entre o desejo obsessivo e o recalque, observa que o retorno do recalcado não esgota a produção sintomática.

Os dois últimos artigos se dirigem a uma das facetas mais desafiadoras da clínica psicanalítica contemporânea: a clínica das psicoses. A referência à psicose não poderia deixar de figurar em uma coletânea atravessada pelos enigmas trazidos pela clínica em busca de articulações teóricas que lhe proporcionem melhor entendimento e a conseqüente possibilidade de operação. Assim, no primeiro artigo dirigido ao tema, "Causalidade e resposta à castração na psicose", Angélica Bastos e Rosa Sarno Oliveira usam a experiência clínica para estudar uma questão polêmica sobre o estatuto do sujeito nas psicoses. Referem-se à oposição entre causalidade e responsabilidade para definir o psicótico como não isento do assujeitamento e da implicação envolvidos nessas categorias. Nesse mesmo âmbito e também abordando uma questão difícil, Helena Veloso procura descrever, em "Lacan versus Lacan: sobre a psicose", a maneira como a experiência fez com que Lacan passasse a acentuar os Nomes-do-Pai em oposição ao Nome-do-Pai. Ao elaborar essa passagem, faz valer as conseqüências dos desenvolvimentos teóricos lacanianos para pensar a psicose na clínica contemporânea.

O leitor tem, assim, a oportunidade de entrar em contato com temas que, embora aparentemente variados, têm em comum a tentativa de teorizar a especificidade do discurso analítico ao operar seus efeitos mais ricos e contundentes; efeitos presentes no cotidiano e no sofrimento que o acompanha, na demanda de alívio que encetam e no desejo cuja circulação muitas vezes podem garantir.

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