UFRJ - PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA PSICANALÍTICA

Área Restrita

Esqueci minha senha

Publicações

Efeitos terapêuticos na clínica psicanalítica contemporânea

Efeitos terapêuticos na clínica psicanalítica contemporânea
Organizadora: Tania Coelho dos Santos
Rio de Janeiro
Contra Capa Livraria, 2005

Sumário

Apresentação

Tania Coelho dos Santos

Efeitos terapêuticos na clínica psicanalítica contemporânea

Serge Cottet

A aceleração dos efeitos terapêuticos em psicanálise

Serge Cottet

Problemas de formação no Centro Psicanalítico de Consultas e Tratamento

Serge Cottet

Nota sobre as conferências de Serge Cottet no Rio de Janeiro

Ana Lúcia Lutterbach Holck

A prática lacaniana na civilização sem bússola

Tania Coelho dos Santos
Julio Sergio Verztman

A prática entre vários: princípios e aplicação da psicanálise

Angélica Bastos
Ana Beatriz Freire

 

Apresentação

No Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica, somos muito sensíveis ao profundo remanejamento da teoria e da clínica psicanalíticas que se elabora e se deposita em torno do Departamento de Psicanálise de Paris VIII, razão pela qual propusemos a seu diretor Jacques-Alain Miller um acordo de cooperação internacional sobre a atualidade da psicanálise pura e da psicanálise aplicada à psicoterapia. Os artigos assinados por mim e por Ana Beatriz Freire e Angélica Bastos testemunham parte dos resultados desse acordo. Dirijo essa cooperação com Serge Cottet, seguramente um dos psicanalistas mais expressivos da Escola da Causa freudiana. 

Entre outros motivos, destaca-se por sua inserção privilegiada como Doutor de Estado e professor titular do Departamento de Psicanálise de Paris VIII. Responsável pela formação de numerosos mestres e doutores, é sem dúvida um dos pilares da pesquisa de ponta que o Instituto do Campo Freudiano desenvolve no campo da psicose. E, como encarregado da Seção Clínica de Gennevilliers, realiza o que talvez seja o grande sonho dos psicanalistas brasileiros na universidade: reunir o ensino teórico sustentado no rigor científico à particularidade incontornável do saber que advém da prática clínica. Foi esse enlaçamento entre universidade e formação do psicanalista que nos instigou a convidá-lo para ensinar no Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a Escola Brasileira de Psicanálise (EBP). As conferências de Serge Cottet no Rio de Janeiro (repetidas em São Paulo) durante o mês de novembro de 2003, nas quais mais uma vez vimos seu estilo revelar um talento bastante raro em aliar a robusta exatidão teórica com a delicada precisão clínica, conferiram novo fôlego e atualizaram o ensino de Freud e Lacan sobre a direção da cura psicanalítica e os princípios do seu poder. Descortinaram um profundo movimento de transformação no terreno da formação do psicanalista e do pesquisador de orientação lacaniana, bem como despertaram nossa sensibilidade para a urgência de reformular o aforisma lacaniano “não há formação do psicanalista, somente formações do inconsciente”. Esse axioma, pode-se reconhecê-lo hoje, contribuiu para difundir a idéia de uma precariedade na sistematização da formação do psicanalista que parece ter tornado mais aguda a emulação com a pós-graduação universitária.

Os efeitos da polarização entre os cursos de pós-graduação e as instituições psicanalíticas são bem conhecidos no Rio de Janeiro. O ensino não sistemático da psicanálise nas instituições psicanalíticas conduziu grande número de analistas a buscar os programas de mestrado e doutorado em psicanálise, em particular o programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da UFRJ, que conheceu, graças à referida polarização, sucesso memorável. Essa polêmica em torno da oposição instituições versus universidades, todavia, tem ocultado o ponto fraco da formação de analistas e pesquisadores: o ensino baseado na clínica. Com as exposições de Cottet, pudemos perceber que o trabalho que se efetua tanto nas seções clínicas quanto no recém-criado Centro Psicanalítico de Consultas e Tratamento (CPCT), em Paris, deve servir de inspiração para retificar esse hiato entre a teoria e a clínica psicanalíticas. Tal retificação, aliás, é bastante urgente porque a clínica freudiana clássica, cuja estrutura foi cuidadosamente formalizada por Lacan, já não é suficiente para nos orientar quanto ao diagnóstico e à direção da cura psicanalítica em uma quantidade numerosa de novos sintomas. O declínio da função paterna, a ascensão do objeto a ao zênite da civilização, o esboroamento da moral sexual civilizada são apenas alguns dos vetores de uma profunda transformação da subjetividade na contemporaneidade. O sujeito, submetido aos efeitos do discurso da ciência, aprofunda sua rejeição ao inconsciente. Como mostra Serge Cottet, pode-se demarcar hoje, por exemplo, uma distinção muito sutil entre a anorexia clássica e a o novo sintoma anoréxico. Enquanto na primeira a recusa da satisfação com o objeto da demanda serve para reavê-lo na dimensão de objeto causa do desejo, a anorexia contemporânea se baseia no gozo com a dor provocada pela fome, sendo sua relação com o desamparo e a omissão no exercício da função paterna o fator etiológico a ser ressaltado. Além disso, a diferença entre os sintomas clássicos e os novos sintomas, decorrentes do enfraquecimento da organização edipiana da família, desencadeia uma nova interrogação acerca da diferença estrutural entre neurose e psicose. Descontinuidade estrutural ou continuidade pulsional? De que parâmetro, de que ponto de vista, devemos nos servir para distingui-las? Essa distinção é essencial ou não à direção do tratamento psicanalítico? Psicanalistas e pesquisadores em psicanálise encontrarão grande benefício também nos ensinamentos de Serge Cottet sobre a aceleração dos efeitos terapêuticos na psicanálise aplicada.

Uma pequena amostra de intervenções clínicas, reunidas durante sua conferência de introdução aos trabalhos de preparação das Jornadas PIPOL (Programa Internacional da Psicanálise de Orientação Lacaniana), realizadas no fim de junho de 2005, foi gentilmente cedida e participa deste livro. Sua argumentação permite compreender melhor porque, para além da diferença entre neurose e psicose, a clínica de hoje precisa se orientar pelo sintoma como resposta singular do sujeito ao real. Longe de rebaixá-lo a um simples disfuncionamento, é preciso aprender a tomá-lo como solução paradoxal. O artigo intitulado “Problemas de formação no Centro Psicanalítico de Consultas e Tratamento” condensa alguns outros aspectos importantes para a formação do analista. Completa o volume uma nota de Ana Lúcia Lutterbach Holck sobre a importância do CPCT na EBP-Rio, em que é aludida a importância das soluções originais do sujeito ante o crime organizado e a sociedade de consumo nas comunidades informais do Rio de Janeiro. Agradecemos à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES) pelo financiamento das passagens aéreas e a estadia de nosso convidado. Ana Lúcia Lutterbach Holck e Margareth Ferraz, diretoras, respectivamente, da Escola Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro e de São Paulo, ofereceram-nos suporte complementar precioso. Os integrantes do Núcleo Séphora de Pesquisa, sobretudo Roberta Guimarães d’Assunção, Rosa Guedes Lopes, Rachel Amin Freitas, Vera Avellar Ribeiro, Sonia Pastorino, Maria Cristina Antunes, Marcela Decourt, Fabio Azeredo, Ana Paula Sartori, Márcia Zucchi, Vanda Assunção e Ondina Machado, colaboraram diretamente na administração, na organização, na gravação e na transcrição das conferências. Somos gratos ainda à solidariedade de Manoel Barros da Motta e Mirta Zbrun, bem como ao empenho, à gentileza e à generosidade de Jorge Forbes.


« volta

© 2014 Todos os direitos reservados a UFRJ - Programa de Pós Graduação em Teoria Psicanalítica
Desenvolvido por Plano B