UFRJ - PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA PSICANALÍTICA

Área Restrita

Esqueci minha senha

Publicações

Corpo, sintoma e psicose: leituras do contemporâneo

Corpo, sintoma e psicose: leituras do contemporânea
Organizadora: Ana Cristina Figueiredo
Rio de Janeiro
Contra Capa Livraria, 2006

Sumário

Apresentação

Ana Cristina Figueiredo

 

CORPO E SINTOMA

O contemporâneo do sintoma

Regina Herzog

Psicanálise e sintomas contemporâneos

Antônio Godino Cabas

O despedaçamento da experiência reprodutiva e as novas formas de filiação

Simone Perelson

Ego-arte e construção da aparência: notas para uma antropologia das aparências corporais

Stéphane Malysse


CLÍNICA DA PSICOSE E SAÚDE MENTAL


Psicose e saber

Ana Beatriz Freire

Sobre a direção do tratamento no campo da psicose:que concepção para a transferência e seu manejo na psicose? 

Maria Silvia Garcia Fernández Hanna

Psicanálise e clínica da psicose: o que não tem sossego, nem nunca terá 

Edson Saggese

Sobre algumas incidências da psicanálise na saúde mental

Eduardo de Carvalho Rocha

Psicanálise e saúde mental: o “e” da questão

Musso Greco

 

POSFÁCIO

Psicanálise, clínica e singularidade

Joel Birman

Sobre os autores

 

Apresentação

Em sua conhecida conferência “Psicanálise e psiquiatria”, de 1917, Freud, ao se dirigir a doutores e leigos na Universidade de Viena, afirma que não acredita na controvérsia científica, principalmente no que diz respeito ao alcance da psicanálise. De modo geral, esses debates seriam conduzidos em termos pessoais e não levariam a nenhuma mudança de opinião de qualquer uma das partes envolvidas. Hoje, novos desafios são lançados e a indesejável controvérsia é inevitável quando se fala do ‘contemporâneo’. Tem sido uma constante entre certos intelectuais e psicanalistas decretar o fim da modernidade, que se traduziria como o fim da história, o fim do Outro, do Édipo, da reprodução sexuada, enfim: o fim da transmissão de uma tradição. O contemporâneo seria o fim como um corte em qualquer continuidade.

Coisas do fim de século ou bem do começo de uma nova era? Há os que, ao contrário, veriam no contemporâneo um tempo fértil para as pluralidades, a afirmação das diferenças, que comportaria a convivência democrática do mais tradicional de uma cultura, por exemplo, com a estética mais arrojada de certas experiências subjetivas. Eis uma controvérsia que pode valer a pena, ou simplesmente ser uma perda de tempo, se atentamos para as palavras de Freud. Como definir o contemporâneo, afinal? Recordo uma cena do filme Um filme falado, de Manoel de Oliveira, em que a menininha de cinco ou seis anos, em uma viagem pelo Mediterrâneo entre a Europa e a África, pergunta a sua mãe, professora de história: “O que é o contemporâneo, mamãe?” E ouve a resposta que vem serena, sem hesitação: “Contemporâneo é o tempo em que vivemos hoje minha filha”. Tal afirmação, uma tautologia, pode bastar em toda a sua simplicidade e, ao mesmo tempo, trazer à cena justo o que há de enigmático e inapreensível nesse tempo.

O filme nos dá a sua resposta pela imagem do real que atravessa a tradição e corta a história em uma explosão. Os textos desta coletânea foram originalmente apresentados no IV Colóquio do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, realizado em dezembro de 2003, e discutem sob diferentes ângulos questões que trazem a marca desse tempo, em sua maioria tomando a psicanálise como crivo de leitura. Destacam-se os temas do corpo, do sintoma e da psicose abordados em interfaces com a antropologia, a medicina, a psiquiatria e a saúde mental. A controvérsia toma corpo, melhor dizendo, toma o corpo quando se trata do tema da reprodução assistida em suas diferentes modalidades que dispensam o ato sexual, provocando uma reviravolta na ética médica e na participação da psicanálise nessa ousadia da ciência. Ou seria da tecnologia médica? Como traçar essa fronteira? Disso decorrem inúmeras discussões sobre novas formas de constituição dos casais e da família que atingem inclusive os homossexuais e transexuais. Para onde mesmo vai o Édipo nessa miríade de opções de paternidade? Que lugar para os bebês programados que tornam a literatura de science fiction uma realidade tentadora e, ao mesmo tempo, assustadora (ao menos para os mais conservadores adeptos do ‘papai-e-mamãe’, como a base da felicidade e da harmonia familiar)? Novos sintomas se desvelam nessa operação de extração do sexo? O que há de fato novo nessa miragem? Enquanto isso, cultiva-se a corpolatria nas diferentes apresentações do corpo, desde o body building, passando pelas diversas cirurgias plásticas e pelo make over, ao mega hair implantado. Este pode lembrar as longas madeixas das donzelas do século retrasado, as amazonas ou a garota de Ipanema revisitada, atravessando o tempo. Qual o limite para esse gozo definitivamente fora da reprodução? Gozo do corpo sustentado pelo discurso capitalista na contramão do laço social? O que a psicanálise pode fazer aí, além de intervir apenas quando esse imaginário não mais recobre o real, trazendo à tona toda a angústia de um corpo mortal ou de um sintoma fracassado?

Simultaneamente, escutamos as psicoses que ainda apresentam as características das grandes esquizofrenias e paranóias, sem nada dever ao século XIX, em seus delírios ora místicos, ora maquínicos. A diferença estaria no deslocamento da trepanação experimentada por Schreber para o implante de chips da nossa era da informática. Nada que modifique a certeza instalada da experiência psicótica, cujo maior desafio para a psicanálise é restituir ao sujeito a possibilidade de resposta ao que o invade. Aqui o debate é entre o reducionismo organicista, que vem amesquinhando a psiquiatria em tempos do pragmatismo de resultados baseados em ‘evidência’, e a reforma psiquiátrica (e seu correlato, o campo da saúde mental), que restaura valores como cidadania, autonomia e inclusão social, nada estranhos ao século das Luzes. Só que desta vez não é a razão que impera, mas a inclusão da foraclusão, da raiz das psicoses, no laço social. Essa inclusão deve se dar desde a psicanálise possível da psicose, sem recuar diante do real que retorna na transferência e na palavra com estatuto de coisa, passando pela experiência das residências terapêuticas, as moradias que ocupam o espaço social longe dos asilos e da segregação, até o trabalho protegido visando à geração de renda. Eis o que há de mais contemporâneo nesse campo. Ao leitor deixamos a tarefa de tomar para si a responsabilidade de decidir se a controvérsia vale a pena ou se, seguindo os passos de Freud, deve retomar o que a psicanálise de fato pode fazer aí, e pôr à prova o seu alcance. Nesse caso, não cabe ao psicanalista atualizar-se no ‘contemporâneo’ em uma espécie de maquiagem de sua técnica. Ao contrário, deve ater-se aos princípios da psicanálise sem temer pluralizar seus dispositivos, como no trabalho coletivo em instituições, por exemplo, e sustentar sua transmissão pela via da própria clínica, a cada vez, em cada caso.

« volta

© 2014 Todos os direitos reservados a UFRJ - Programa de Pós Graduação em Teoria Psicanalítica
Desenvolvido por Plano B