UFRJ - PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA PSICANALÍTICA

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Apostar no sintoma

Apostar no sintoma
Organizadora: Ana Beatriz Freire
Rio de Janeiro
Contra Capa, 2008

Sumário

Apresentação

Ana Beatriz Freire

Apostar no sintoma

Yves-Claude Stavy

Em torno do sintoma e do pai: um caso clínico

Ana Beatriz Freire
Jeanne Marie de Leers Costa Ribeiro
Katia Alvares de Carvalho Monteiro

Do tipo clínico a uma construção singular: função do corte

Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros

Estrutura e gozo: os novos sintomas como solução na neurose e nas psicoses

Márcia Aparecida Zucchi
Tania Coelho dos Santos

O vazio e o excesso no sintoma contemporâneo

Isabel Fortes

As marcas do “outro” na psoríase: trauma e alteridade no adoecimento psicossomático

Marta Rezende Cardoso
Lilia Frediani Moriconi

Resistir é preciso: por uma positivação do sintoma

Fernanda Canavêz
Regina Herzog

Psicanálise, um sintoma do qual a humanidade poderá vir a se curar?

Giselle Falbo

Sintoma e interpretação

Mônica Assunção Costa Lima

Leituras sobre a loucura em Descartes. Comentários de Lacan, Foucault e Derrida sobre as Meditações

Joel Birman

Sobre os autores

 

Apresentação

Este livro sintetiza e oferece as balizas de construção, reflexão e orientação da psicanálise em torno do sintoma propostas por um conjunto de contribuições inseridas no Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Parte delas aposta no sintoma e resulta de parceria de pesquisas desenvolvidas no Programa com atividades do Campo freudiano. Trata-se, contudo, de apostar num sentido paradoxal, pois, sem destituí-lo como uma simples patologia ou disfunção, como querem certas vertentes da psicologia e da psiquiatria, deve-se, com a escuta analítica, aprender a acolhê-lo como invenção e, às vezes, possibilidade de amarração e estabilização, no caso a caso, mesmo sabendo de sua associação com uma cota de gozo intratável. O sintoma, apesar de paradoxal, pode, quando atrelado à criação, tornar-se um achado (trouvaille), um aliado propiciador. A aposta em jogo aqui, portanto, é transformar o sintoma, originalmente atrelado ao que vem do Outro e devasta o sujeito, em processo de criação, ou seja, num aliado da direção do tratamento psicanalítico. Esse apostar vale tanto para a psicose, como se vê nos casos clínicos relatados nos dois primeiros artigos, quanto para a neurose, como se pode ler no caso de uma criança de quatro anos, assim como em casos de psicossomática e naqueles que, contemporaneamente, apresentam-se, em sua estrutura, de modo inclassificável por não apresentarem desencadeamento ou crise propriamente dita.

A coletânea se abre com as considerações do psicanalista francês Yves-Claude Stavy, chefe do serviço infanto-juvenil do Hospitaldia de Aubervilliers, em Seine Saint-Denis, sobre o caso de uma mulher psicótica, Gladys, que conseguiu, em face da escuta analítica, construir um sintoma em torno do impossível da relação sexual e do feminino. Por intermédio de significantes desarticulados de sua história, foi possível para essa jovem inscrever uma letra fora do sentido, criar um sintoma como testemunho do real que não se escreve. Em três tempos, três escansões (“angústia sem sintoma”, “o escrever pela letra” e “uma intervenção modesta”), o analista apostou, como parceiro do sintoma, numa mudança radical: do efeito de devastação que lhe produziam as palavras de alíngua à transformação deste num efeito sintoma do qual essa paciente, como sujeito, tornou-se autor e chegou a dar conta do que não tem nome, a saber, sua angústia. Mesmo sem o recurso do falo, como ocorre na neurose, ela conquistou e conseguiu encontrar, além de seu sintoma, uma alteridade possível com ela própria.

Tratando do sintoma como efeito subjetivo na psicose, o artigo “Em torno do sintoma e do pai: um caso clínico”, resultado de pesquisa com adolescentes na comunidade, realizada por mim com Jeanne Marie Costa Ribeiro e Katia Alvares, propõe refletir sobre o seu estatuto como invenção de um sujeito no caso de uma criança autista. Trata-se de uma criança em processo de análise desde os três anos, que conseguiu se deslocar da posição inicial de assujeitamento ao gozo avassalador para a posição de sujeito do significante. Ou melhor, do isolamento em sua defesa autística essa criança, ajudada pelo acolhimento de seu trabalho em torno do esvaziamento do gozo, passou a construir, de forma inédita, laços possíveis com o outro e, o que é mais importante, uma enunciação própria. Interrogamos, então, como a construção em torno do impossível pôde, num caso tão grave de autismo, produzir uma forma de suplência ao pai simbólico, que, por estrutura, encontra-se excluído, foracluído. Ao apostar que, mesmo na psicose, e em particular no autismo, é possível tal amarração, esse trabalho clínico articula o último ensino de Jacques Lacan em torno dos nomes do pai ao sintoma como invenção criativa que constitui o sujeito. Em outras palavras, com base numa travessia que parte do emaranhado de significantes sem sentido em direção ao laço social, o caso desse menino, atualmente um jovem adolescente, interroga-nos sobre o lugar do sintoma como resposta ou tratamento do Outro louco, devastador, que o ameaçava e lhe visava.

Seguindo a mesma direção, a articulação de caso clínico de Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros, coordenadora do Núcleo de Criança do Instituto da Clínica Psicanalítica (Curumim), ratifica a tese de apostar no sintoma; desta vez, pela demonstração que isso vale também para casos de neurose. A analista apresenta o caso de uma criança neurótica de quatro anos, Rosa, que faz, pelo tratamento do impossível da relação sexual, um percurso bastante próprio de construção do sintoma: da devastação materna, presente no início do tratamento, à invenção de um sintoma, essa criança cava, no acolhimento de seu trabalho pela escuta analítica, um lugar para si como sujeito, evidenciando-se que as crianças chegam à análise afetadas pelo gozo que se deposita sobre elas, e que, muitas vezes, este é refratário ao tratamento pela via do sentido e da interpretação. Constatamos, com a autora, que a função paterna, a qual muitas vezes destitui a criança do lugar de objeto da fantasia materna, pode ser necessária, mas não é suficiente para tratar tal gozo. Além dela, foi preciso que a criança, em sua construção, conseguisse fazer valer o que do pai restou como impossível ou não assimilável pela identificação. As preciosas intervenções da analista permitiram, por meio do corte e não da completude entre identificação e objeto, “extrair da modalidade de gozo que é fixada como um tipo clínico, por exemplo, a hiperatividade, o caso único, em que se pode localizar a construção singular do sujeito”. O caso clínico dessa menina, portanto, testemunha de forma exemplar como, mesmo na neurose, não há garantia de um Pai dado que responda ao enigma do real como impossível.

O quarto texto, de autoria de Márcia Aparecida Zucchi e Tania Coelho dos Santos, inicia a discussão sobre o estatuto do sintoma e da estrutura na clínica contemporânea com estas questões: qual a relação existente entre os novos sintomas, as patologias do excesso e o Outro contemporâneo? As patologias do excesso são neuroses ou psicoses? De que acontecimento de corpo, neurótico ou psicótico, trata-se nos diferentes usos sintomáticos do corpo em suas expressões contemporâneas? As autoras sustentam a hipótese de que as patologias contemporâneas, os novos sintomas, caracterizamse por um excesso pulsional irredutível à função fálica – função operante numa época de hegemonia do Nome-do-Pai, em que o funcionamento psíquico podia ser regulado pelo princípio do prazer. Por essa razão, o artigo defende a existência, hoje, de grande incidência de fenômenos psicopatológicos no corpo, em detrimento do pensamento. Apoiadas na trilogia das discussões levadas a cabo no Conciliábulo de Angers, na Conversação de Arcachon e na Convenção de Antibes, da Associação Mundial de Psicanálise, as autoras tecem possíveis caminhos para pensar o lugar do Nome-do-Pai na atualidade e, conseqüentemente, respostas aos impasses contemporâneos apresentados no tratamento dos novos sintomas, entre os quais as patologias do excesso e o corpo na neurose, por exemplo, as neoconversões, e as psicoses nomeadas de ordinárias.“O vazio e o excesso no sintoma contemporâneo”, de Isabel Fortes, segue na mesma direção de reflexão sobre as demandas de felicidade e bem-estar sociais na atualidade, para propor uma análise sobre o sofrimento e a incessante demanda, preponderante na sociedade atual, de extirpar a dor. Ao questionar a marca do hedonismo na cultura de hoje, o artigo tece considerações em torno das modalidades de subjetivar esse sofrimento e de resistir ao que se denomina “cultura do narcisismo”. Em tal cultura, definida pelo desamparo e a dispersão da função paterna, deparamo-nos com sintomas diferentes da neurose clássica, que se calcava na pedra angular do recalque. Trata-se de sintomas no nível do que a autora classifica como desordens do caráter, e que exigem do psicanalista contemporâneo tanto uma reflexão quanto um retorno à função paradoxal da pulsão como excesso; em particular, da pulsão de morte como limite paradoxal entre o vazio e o excesso. Desse modo, defende a tese de que há relação imanente entre o excesso do sintoma (em adições e compulsões, no consumismo desenfreado, e em passagens ao ato) e o sentimento de vazio, desamparo e insuficiência próprio ao mundo contemporâneo.

Por sua vez, o artigo de Marta Rezende Cardoso e Lilia Frediani Moriconi propõe uma investigação teórica e psicanalítica dos mecanismos psíquicos envolvidos na formação das patologias psicossomáticas, em especial das determinações psíquicas que estariam na base do processo de adoecimento em casos de psoríase. O artigo tem como objetivo pensar o papel desempenhado por uma dimensão traumática no processo de subjetivação dos sujeitos portadores dessa patologia. Ao caracterizar o trauma como um excesso de energia no interior do aparelho psíquico que escapa à capacidade de simbolização por parte do ego, as autoras propõem desenvolver, tendo como base as contribuições do Instituto de Psicossomática de Paris, a articulação entre o excesso pulsional e o surgimento das patologias psicossomáticas em geral. O artigo apresenta também, em universo mais amplo, a contribuição da psicanálise, em particular do conceito de corpo pulsional – limítrofe, como sabemos desde Freud, entre o psíquico e o somático –, à especificidade do adoecimento nos casos de psoríase. Para isso, partem da definição do trauma não apenas como via para o entendimento do adoecimento psicossomático, como também em sua articulação com uma dimensão de alteridade.
Na parte final desta coletânea, reúnem-se quatro trabalhos em torno da genealogia e das condições de possibilidade da concepção do sintoma na contemporaneidade, seja por sua definição como resistência paradoxal, seja pela própria psicanálise como sintoma, pelo conceito de causalidade na obra de Lacan ou pela gênese da loucura.
O trabalho de Fernanda Canavêz e Regina Herzog, como seu o título sugere, mostra como o sintoma freudiano, que se contrapunha ao discurso científico no início do século XIX, faz “resistência à própria concepção de um mal a ser extirpado” e pode ser “positivado” a partir e na imanência da resistência que o constitui. As autoras analisam a dupla vertente da concepção do sintoma em Freud: de um lado, é engendrado por um conflito e um compromisso decorrentes das exigências da civilização, a serviço da regulação social; de outro, está articulado ao desejo inconsciente e, por essa razão, é irredutível a quaisquer conciliação e compromisso possíveis. Apesar de o sintoma, de certa maneira, resguardar papel fundamental nas relações sociais, a aposta das autoras é que ele comporta uma dimensão disruptiva em relação às regras ditadas pelo social. Tal dimensão se evidenciaria pela própria forma de resistência do sintoma, uma vez que esta impõe uma singularidade, uma diferença da posição do sujeito em face do anonimato e das malhas universalizantes que visam à hegemonia de Eros e à sua função de completude, isto é, de um todo unívoco. Entre essas manifestações totalizantes, constata-se, na contemporaneidade, a presença de formas imperativas irrestritas, milagrosas e instantâneas para o alcance, a qualquer preço, da felicidade e da extirpação de todo tipo de mal. Na contramão dessas manifestações, o artigo propõe positivar a característica disruptiva imanente ao sintoma como resistência e favorecimento de singularidade, convocando-nos ao dever ético de acolhê-lo como analistas.

Giselle Falbo desenvolve, no âmago do retorno feito por Lacan sobre o mal-estar na civilização proposto por Freud, a hipótese do desaparecimento da psicanálise. Interpreta essa possibilidade à luz de dois pronunciamentos de Lacan feitos na Itália em 1 4. Nessas ocasiões, ao contextualizar o surgimento histórico da psicanálise no discurso da ciência desde Descartes, o psicanalista francês não apenas anunciou o desaparecimento da psicanálise, como afirmou que isso testemunharia a cura da humanidade. Para interpretar esses dois postulados de Lacan, Falbo atravessa a relação da psicanálise com a ciência no texto freudiano “Projeto para uma psicologia científica”, a origem da ciência no racionalismo e na filosofia cartesiana, e, por fim, o dito “triunfo da religião”. Ao distinguir a resposta da psicanálise daquela prometida pela religião, a autora aposta que o sintoma na psicanálise, por tocar o real, pode ser uma forma de resistir ao triunfo do grande sintoma na contemporaneidade, a saber, a religião.Na penúltima contribuição, Mônica Lima percorre as obras de Freud e Lacan em torno do sintoma, orientando-se pela dupla vertente que lhe caracteriza: ora formação de compromisso, ora excesso de satisfação pulsional. Seu artigo, intitulado “Sintoma e interpretação”, apresenta-se como uma travessia na obra desses psicanalistas, cuja finalidade é abordar a questão da causalidade psíquica na tensão, nem sempre simétrica, entre o que é representável, interpretável ou logicizável, de um lado, e o que escapa à linguagem, a saber, o real como resto irrepresentável do sintoma, do outro. À guisa de conclusão, a autora afirma que a causa do desejo e do sentido é não apenas o significante, mas também o objeto, o que abre caminho para as dimensões da responsabilidade, da ética e, em conseqüência, do ato analítico como causa para o sujeito.

O livro se encerra com o artigo de Joel Birman, em que o autor desenvolve o debate fervoroso dos discursos filosófico, psicanalítico e psiquiátrico iniciado com a problemática da loucura, tal como analisada por René Descartes em Meditações. Birman comenta, de maneira crítica, não só esse embate, ora frontal, ora virtual, como também contribuições de personagens importantes da tradição intelectual francesa: de um lado, Henri Ey e Jacques Lacan, no que tange à causalidade da loucura, e de outro, Michel Foucault e Jacques Derrida.

Com esse debate em torno de Descartes, retornamos à reflexão inicial sobre a aposta no sintoma e sobre o que este é e o que pode para um psicanalista. Apesar de sua cota não analisável, de mais-degozar, concluímos que apostar no sintoma, na condição de parceiros, é uma tarefa ética, e que, como psicanalistas, não devemos recuar não apenas diante da psicose, como afirmado por Lacan, mas também dos sintomas contemporâneos, como as neoconversões, as psicoses ditas ordinárias, o autismo, a psicossomática e as patologias do excesso.

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